Os britânicos Rakes, que nasceram para o mundo em 2004, tornaram-se no ano seguinte um dos nomes mais falados do rock britânico com o álbum de estreia Capture/Release, muito por culpa de uma canção que não deixou qualquer melómano indiferente: «22 Grand Job». Liderada pelo carismático e vegan-até-à-medula Alan Donohoe, a banda londrina conheceu o doce sabor do sucesso e riu a bom rir quando cada um dos seus elementos foi informado pelo contabilista da banda que tinha feito exactamente o valor sobre o qual a canção falava. É em canções sobre a vida quotidiana – londrina, pois claro – que a banda se sente realmente em casa: trabalhar das 9 às 5, ir de seguida para o pub, beber até cair e catrefadas de «one night stands» não são temáticas alheias aos temas presentes em Capture/Release (além de «22 Grand Job», a estreia da banda incluía também o single «Work, Work, Work (Pub, Club, Sleep)»). «Penso que varia muito, não penso que tenhamos grandes regras», explicava Donohoe, sobre o processo de composição da banda no ano de 2005 em entrevista ao site de música musicOMH.com. «Algumas das nossas canções são sobre acontecimentos do dia-a-dia, mas isso não acontece por um esforço consciente. É algo sobre o que escrevemos naturalmente. Digo novamente, não há regras, por isso outras vezes escrevemos sobre personagens fictícias, quase como um filme ou uma história, uma narrativa».Apesar de Donohoe e o baixista Jamie Hornsmith serem amigos de longa data, o grupo juntou-se num local muito pouco provável: os dois músicos decidiram formar os Rakes depois de conhecerem o guitarrista Matthew Swinnerton e o baterista Lasse Peterson numa loja de roupa em Londres onde Hornsmith trabalhava (os dois músicos eram seus colegas). «Eu e o baterista nunca tínhamos estado numa banda antes, mas o Jamie e o Matthew já tinham passado por essa experiência, por isso é tudo muito fresco para alguns de nós e algo já muito batido para outros…», explicava Donohoe.O que se seguiu à formação da banda foi um processo rápido até ao reconhecimento público: Capture/Release subiu ao 32º lugar da tabela de vendas de álbuns no Reino Unido e os singles tornaram-se presença assídua nas rádios. Foi, no entanto, com Ten New Messages, editado em 2007, que o nome Rakes se tornou um valor seguro. Produzido por Jim Abbiss (que no currículo tem inscritos trabalhos com os Arctic Monkeys, Ladytron, Editors ou Kasabian) e Brendan Lynch (colaborador de, entre outros, Paul Weller, Primal Scream ou Asian Dub Foundation), o segundo registo longa-duração foi, segundo Alan Donohoe, inspirado por «uma combinação de música coral, a série de televisão 24, canções de filmes do James Bond, poetas da Iª Guerra Mundial e as Sugababes». Recebido com críticas medianas na imprensa musical, Ten New Messages (o título aparece escrito em código morse na capa do registo) contava com as participações do rapper Raxtar e da cantora Laura Marling no tema «Suspicious Eyes» (ambos os músicos foram descobertos pelo vocalista dos Rakes no MySpace e a aposta foi ganha, já que Marling chegou a ser nomeada no ano passado para o conceituado Mercury Prize pelo primeiro álbum em nome próprio Alas, I Cannot Swim).Klang: o terceiro capítuloExactamente «dois anos e quatro dias» depois de o segundo álbum sair para as lojas, os Rakes editaram o sucessor Klang. Foi a 23 de Março que o registo ficou disponível e a banda resolveu salientar o facto de em dois anos o mundo ter mudado bastante: «No geral, já ninguém fuma nos pubs, toda a gente tem Twitter, há um presidente negro e aqueles trabalho de “22 grand” na cidade não estão nada bem; musicalmente falando, a maioria das bandas que apareceu na mesma altura que os Rakes já não existem». É assim que o grupo introduz o seu regresso à música… Um disco que resulta de grandes mudanças.Gravado em Berlim, Klang conta com produção de Chris Zane, nova-iorquino que deixou marca em álbuns dos Les Savy Fav, Asobi Seksu, The Walkmen ou Tokyo Police Club. «Há algo especial sobre Berlim, especialmente na parte leste onde nós gravámos» contou Alan Donohoe em Fevereiro passado ao site de música Gigwise. «Tudo parece tão pouco iluminado, como se toda a cidade fizesse parte de um filme negro».O facto de terem ido buscar um produtor bem menos reconhecido que aqueles com quem trabalharam em álbuns anteriores revela uma mudança de estratégia: o vocalista assume que a banda tentou seguir um caminho «mais experimental», não ficando tão presa à fórmula verso-refrão-verso. «O estúdio foi perfeito para isso. Tem uma longa história associada à RDA, antiga República Democrática Alemã, e a Eric Honecker [líder da RDA entre 1971 e 1989]. Era usado pela RDA para emitir propaganda. É um sítio bastante imponente com muitas salas e corredores, e sim, permitiu-nos fazer aquilo que queríamos». Estas intenções musicais diferentes são também o reflexo directo de os Rakes terem tido tempo para pensar bem no terceiro álbum (entre o primeiro registo e o final da promoção a Ten New Messages não tiveram praticamente tempo para respirar). «É sempre bom sair do ciclo digressão-gravação-digressão-gravação. É bom sair e fazer outras coisas. Precisávamos desse tempo, porque depois regressamos com uma perspectiva fresca, com novas ideias relativamente àquilo que queremos», explica o guitarrista Matthew Swinnerton no texto que apresenta Klang.Um álbum mais simples e directo ao assunto, com dez canções curtas e certeiras, Klang recupera a energia que fervilhava no álbum de estreia mas transforma-a em algo metódico. A banda não tem problemas em assegurar que este é o seu melhor álbum até à data: «Estou mais orgulhoso deste álbum que de qualquer outra coisa que alguma vez tenha feito» diz o baterista Lasse Peterson, enquanto que o baixista Jamie Hornsmith não tem dúvidas que em Klang reside a «essência dos Rakes» e o guitarrista acrescenta: «Rakes é energia, concisão, aspereza, convicção, e este disco consegue captar isso, definitivamente». Donohoe tem a última palavra: «É o álbum mais forte que fizemos. Com toda a certeza». MÁRIO RUI VIEIRAOs The Rakes actuam a 18 de Setembro na Casa da Música (Porto), num espectáculo inserido no Clubbing Optimus.Uma banda com consciência verdeAlém da música, os Rakes, especialmente o vocalista Alan Donohoe, são também reconhecidos pelo seu trabalho de defesa dos direitos dos animais. Vegan há cerca de uma década, o cantor chegou a recusar um negócio publicitário lucrativo com a marca Burberry porque a empresa usa peles verdadeiras nos seus produtos. Além de salvar gatos (o seu felino de estimação Fritz que o diga), o músico mostrou a sua determinação ao correr nu numa iniciativa da PETA (organização de defesa dos animais) contra as touradas em Pamplona (Espanha). Donohoe sempre evitou conduzir em Londres, mas com a mudança para Brighton escolheu guiar o clássico Triumph 1300… Apesar de saber que o automóvel não é o mais eficiente em termos ambientais, garante que ser vegan contrabalança os danos que possa causar: «Em minha defesa, tenho a dizer que sou vegan e essa dieta é muito boa para o ambiente», declarou aosite The Quietus.
Mário Rui Vieira