Depois de umas merecidas férias, o Clubbing Optimus regressava na rentrée com duas propostas bem distintas num género que lhe é bem querido: o pós-punk. Por se apropriar ao ambiente que as noites mensais tentam - e conseguem - recriar, e porque na relação entre oferta e procura no panorama musical geral continua a gerar muitas bandas que não se importariam de ter nascido e vivido entre 1977 e 1983.Os Rakes são um dos nomes maiores do revivalismo pós-punk que começou com os Strokes - e que não tem final marcado - e à Casa da Música trouxeram o ainda quente Klang , mesmo que os dois primeiros álbuns da banda tenham estado sempre em cima da mesa. E foi mesmo "That's the Reason", o segundo single de Klang , que saltou primeiramente à vista num set de pós-rock corridinho, com passo bem marcado, respeitador dos mandamentos conhecidos.Os Rakes são uma banda de guitarras e é isso que se ouviu em "We are all animals", do álbum de estreia Capture/Release : ao vivo são ainda mais ásperas, mais intencionais, mais decididas. Ao longo de sensivelmente uma hora, os Rakes fizeram desfilar um conjunto coeso de canções que provocam reacções mais entusiasmadas em pontos específicos (como em "1989"), e mostram mais uma vez que o pós-rock ganha nova vida quanto colocado em confronto com o público e com o palco. É a sua sina. A contrastar com a presença em palco apesar de tudo normal dos Rakes, Ebony Bones espantou tudo e todos com uma banda que parecia ter saído de um ritual ancestral ou de uma nave extraterrestre: fatiotas coloridas, pinturas faciais, e outros adereços completam um visual que não deixa ninguém indiferente. A entrada em palco, assim como todo o concerto, é feita de coreografias; pouco é deixado ao acaso pela maestrina Ebony Thomas. O encontro entre o pós-punk e a festa faz-se de ritmos tribais, de cantares guerreiros, de sintetizadores gordos e guitarras combativas. Lembramo-nos claro está de M.I.A. - é um pouco inevitável. Mas também de Grace Jones e de outras senhoras que seguram o leme. Mesmo assim, ao primeiro estranhou-se, depois entranhou-se e depois finalmente fez-se a festa. Pouco depois já estavam a receber as faixas de vencedores da noite, apesar de uma actuação que terá pecado por ser escassa. E venceram sobretudo pela energia; foram 50 minutos não raras vezes intensos aos quais o público soube sempre responder, sobretudo quando se envolveu e tornou parte das coreografias alinhavadas por Ebony Thomas. Bones of my Bones foi esticado e espremido para a ocasião: "W.A.R.R.I.O.R.", entre outras, mostrou de que material é feita Ebony Bones. E que é dura de roer. Mas a surpresa da noite foi mesmo uma versão inesperada e inaudita de "Another Brick in the Wall - Part 2", dos Pink Floyd, numa revisitação inevitavelmente futurista que deixou a canção original virada do avesso. Parece ser mesmo essa a aposta de Ebony Bones, empurrar tudo para o futuro e deixar o resto para trás. Só o tempo dirá se o consegue, mas no Clubbing Optimus deixou boas impressões e liderou decididamente as festividades.
Texto: Andé Gomes | Foto: Cristina Pinto Pinto