Em pleno dia de São Valentim, a actuação dos Tindersticks na Casa da Música tinha o seu quê de curioso. Não que não haja amor nas canções dos britânicos. Há-o até em doses consideráveis: sofrido, arrependido, amargurado, dorido, sombrio, cortado a meio com uma serra. A mesma que desfaz em dois pedaços um coração na capa do último disco da banda liderada por Stuart Staples - aparecido após 5 anos de sentido silêncio - sabiamente intitulado The Hungry Saw .Disco feito sem pressões e pressas, o sétimo dos Tindersticks é motivo de orgulho evidente para os de Nottingham. De tal forma que arrancaram o concerto com uma boa parte do disco apresentado como manda o seu alinhamento. Primeiro a introdução a preparar as almas para a viagem e depois a flutuante 'Yesterdays Tomorrows', cheia de graça e luxo taciturno. Logo ali percebeu-se imediatamente que esta formação de hoje está à altura das responsabilidades: defender o passado dos Tindersticks, forrar todas as canções de belos e abundantes arranjos. Para além do espectável, uma secção de sopros e um violoncelo adornaram os temas dos Tindersticks de forma habilíssima. Nessa incursão inicial por The Hungry Saw ergueu-se por mérito próprio uma interpretação intocável de 'Feel the Sun', tela plena de beleza, conseguida à força de um piano prudente, de um violoncelo harmonioso e da voz cavernosa de sempre de Stuart Staples, em dia sim, como se apresentando-se como natural sucessor de Leonard Cohen ou Scott Walker. Por estas alturas já se apreciava a bipolaridade saudável em The Hungry Saw materializada na mansidão de temas como 'Feel the Sun' e na extravagância (ainda que sempre contida) de temas como 'The Flicker Of A Little Girl' e sobretudo - a instrumental com olhos num qualquer deserto - 'E-Type'. Apreciava-se ainda uma admirável vontade dos Tindersticks de não tornarem este regresso num desfilar de clássicos e numa montra de vaidades. Com as canções de The Hungry Saw , livres pela condição de terem sido gravadas em tão pouco tempo e de forma tão desprendida, a actuação dos Tindersticks foi-se desenvolvendo com uma naturalidade notável, com uma graça e gentileza acessível a poucos. O passado, esse, foi representado raras vezes - e sempre em jeito de passagem - mas com especial sucesso quando os Tindersticks sobrevoaram os dois primeiros registos. 'Her' e 'Tiny Tears', já no encore , nas suas diferenças e nas suas afinidades, lembraram a aparição da banda em meados dos anos 90 e de como isso os trouxe até aos dias de hoje. De regresso aos palcos, os Tindersticks mostraram que não é para todos - e ainda não o é certamente para o singer-songwriter David Kitt que em 30 minutos, e na primeira parte, mostrou trabalho mediano - fazer canções com tamanha classe e iluminada graça.
Texto: André Gomes | Foto: Cristina Pinto Pinto