As expectativas excediam as melhores previsões. Sentia-se no ar, nos corredores, na sala - cheia de pessoas e de alento. O concerto que esgotou mais rápido do que qualquer outro na Casa da Música revestia-se de importância superior: por ser o único em Portugal nesta digressão e por reatar uma relação de PJ Harvey com a cidade onde se apresentou aquando de Stories from the City, Stories from the Sea num mítico concerto no Teatro Rivoli. O público, metade português, metade resto da Europa, estava democraticamente informado: que este era um concerto de PJ Harvey e John Parish, e a promessa foi cumprida. Não se ouviu nada mais a 2 de Maio de 2009 na Sala Suggia do que canções dos dois álbuns da dupla, Dance Hall at Louse Point e o ainda fresco A Woman A Man Walked By . Em disco, o trabalho de PJ Harvey com o "engenheiro" John Parish é diferente daquele que assina em nome próprio. Ao vivo, segue a mesma linha. É menos "frontwoman" e mais parceira de Parish. Descalça em palco, PJ Harvey foi menos "femme fatale" e mais vulnerável. Ela é uma mulher que se debate com os mesmos fantasmas que tantas outras mas com uma arma ao seu alcance: as canções, que usa para espécie de exorcismo dos males de amor e para a redenção. John Parish é o maestro, fio condutor, a trocar constantemente de instrumento (guitarras, banjo, ukulele) como se o anterior não fosse já puro o suficiente para a canção que se segue. O concerto aconteceu como acontecem os rituais: cenário minimal preto e branco, PJ Harvey veste um vestido escuro de menina, todos os músicos (com excepção da bateria) vestidos de negro (e com chapéu a condizer) como que simbolizando o que é puro e impuro, sagrado e profano, o que é palpável e sensório. Foi sempre um concerto de belos contrastes. Primeiro, logo a abrir, chegou "Black Hearted Love", face mais visível de A Woman A Man Walked By , uma canção que fala por si mesma. Crua, expansiva, em carne viva, tem guitarras tensas e a voz estranhamente apaziguadora de PJ Harvey. Mas porque o último disco da dupla permite o pisar de terrenos vários, as canções vão-se sucedendo trazendo continuamente algo de novo. Em "Sixteen, Fifteen, Fourteen", intensa, há uma folk indomável que é corpo principal, camuflagem que alimenta e harmoniza; em "The Soldier" coabitam um ukulele, teclas e uma melódica, cada um a valer por si, e uma voz democraticamente fragilizada pela ternura do momento; esta canção pode desfazer-se a qualquer momento nas mãos de alguém. Com "Pig Will Not" PJ Harvey está irada e o resto da banda também. Há guitarras nervosas que surgem do nada, há uivos incontrolados, há percussão sem eira nem beira; o resultado foi um dos momentos mais desconcertantes da noite.Não há como negá-lo. Sentiu-se evidentemente a falta de PJ Harvey a solo - é impossível ter a mulher em palco e não querer "Rid of Me", "Dry", "Big Exit" ou "This is Love" - mas a essência esteve sempre lá. Este é um projecto a duas mãos, está claro. E é-o de tal forma que, já no encore, John Parish, que a solo até tem uma belíssima carreira, não rejeitou sequer dar voz a uma das canções da noite. A união fez a força. Acontece no disco e em palco não foi excepção; a liberdade deixada nestas canções por Parish e Harvey foi recebida com devoção por aqueles que encheram por completo a sala principal da Casa da Música.
Texto: André Gomes / Fotos: Cristina Pinto Pinto