Hoje pode ser um dos rappers de topo do Brasil, mas Marcelo D2 lutou para chegar onde está. Lutou contra uma infância conturbada, lutou contra a justiça quando liderava os Planet Hemp, lutou pelo direito de fumar erva, contra a timidez em palco, contra o luto na sequência da morte do amigo Skunk (colega nos Planet Hemp)… Nascido Marcelo Maldonado Gomes Peixoto há uns irreverentes 41 anos, no Rio de Janeiro, o músico começou a abrir os ouvidos para a música através do samba que a família ouvia. Antes, no entanto, de saltar da posição de ouvinte de música para a de executante ainda passou por uma série de profissões menos glamorosas: foi vendedor de móveis, porteiro e até vendedor ambulante. Foi precisamente na época em que vendia t-shirts e bonés de bandas no centro do Rio de Janeiro que conheceu a pessoa que o resgatou para a música. Em entrevista à revista brasileira IstoÉ Gente, Marcelo explica como tudo começou: «Conheci um cara conhecido como Skunk, que me mostrou uma fita cassete de uma banda de jazz. Nem esperava aquilo porque conversávamos sobre punk rock! Já escrevia muito desde pequeno e criei várias letras, como “Legalize Já” [mais tarde um êxito dos Planet Hemp]. Ele foi como um anjo na minha vida, que me tirou do caminho errado. Não quero nem pensar o que seria se não fosse músico...».Em 1993, Marcelo juntou-se então ao amigo Skunk no projecto Planet Hemp, uma aventura rapcore que no início foi programada como banda rock… O problema é que nem Marcelo nem Skunk sabiam tocar qualquer instrumento. Os dois músicos partilhavam uma grande vontade, assumida no próprio nome da banda: usar a música para expressar a sua opinião sobre o consumo de erva, facto que os levou a ter várias vezes problemas com a justiça. Apesar de só ter cessado funções em 2001, a banda sofreu um grande rombo quando, em Junho de 1994, Skunk faleceu por complicações relacionadas com o HIV, vírus de que era portador. A pedido dos muitos fãs, Marcelo D2 continuou à frente do projecto mas quatro anos depois atirou-se de cabeça para a primeira aventura a solo. Eu Tiro É Onda, gravado no seu estúdio e misturado em Nova Iorque e Los Angeles por Mário Caldato Jr. (colaborador habitual dos Beastie Boys), foi aclamado pelo público, mas porque os Planet Hemp se impuseram novamente na sua vida, só cinco anos depois, após o final da banda, Marcelo voltou a gravar sozinho.Em À Procura da Batida Perfeita, de 2003, Marcelo D2 arrojou, misturando o samba que ouvia em criança com o rap com que se tinha afirmado. Nesse segundo álbum, o músico contou com a colaboração do filho Stephan em «Loadeando», uma homenagem sentida ao pai, falecido anos antes com um cancro. O álbum é também o refúgio de «Qual É?», o maior sucesso de Marcelo até à data. No registo que se seguiu, e que chegou às lojas três anos depois, o músico levou mais longe a sua paixão pelo samba e gravou com grandes cantores do género musical brasileiro, como Alcione, Zeca Pagodinho ou Arlindo Cruz. A mistura hip-hop/samba de Meu Samba É Assim valeu-lhe a aclamação da crítica e trouxe-o a território nacional para um concerto integrado na segunda edição do Rock in Rio Lisboa.No final de 2008, chegou às lojas A Arte do Barulho, o quarto e mais recente álbum de estúdio de Marcelo D2. Apesar de programado como um registo para vozes femininas, o disco conta com participações (que apareceram de forma espontânea) de nomes como Seu Jorge, Mariana Aydar, Marcos Valle ou Roberta Sá. Referindo-se ao álbum como uma reacção ao anterior, Marcelo revelou ao jornal brasileiro O Dia: «O disco bombou e eu pensei: ‘tô’ muito celebridade. Então fiz esse porque me deu vontade de falar: “não, não sou isso”», afirma. Salto premeditado do samba para um território mais rock, A Arte do Barulho revela um músico mais político que nunca. «Eu sou muito inquieto, choro com o que vejo no Jornal Nacional e acho que as pessoas estão muito acomodadas. Não adianta dizer “a culpa é do governo”. Tudo é escolha, não tem essa de “não posso fazer nada”. Começa pelo voto» defende o músico. E será esse o discurso que voltará a apresentar no seu regresso a Portugal.Actua no Clubbing Optimus da Casa da Música, no Porto, a 14 de Novembro.
Mário Rui Vieira