É parte significativa e icónica da imagem que ficou dos anos 90, que parecem já tão distantes: a foto de Deborah Dyer, a.k.a. Skin, de cabeça rapada e mãos na mesma, a soltar aquilo que imaginamos ser um grito. De revolta, de redenção, por justiça, um misto de todos, não sabemos. A imagem é a capa do disco Stoosh e já faz parte da memória colectiva musical, assim como a mão cheia de singles que passearam com insistência nas rádios e televisões entre 1995 e 1999. Não há praticamente ninguém que não reconheça «Hedonism (Just Because You Feel Good)» aos seus primeiros segundos; dificilmente alguém nascido nos anos 80 não vê alguma familiaridade na introdução algo drum ‘n’ bass e no riff de «Charlie Big Potato», que saltou de Post Orgasmic Chill para as ondas radiofónicas com a mesma fúria que exibe nos seus cinco minutos de duração; haverá poucos que não identifiquem prontamente as feições das melodiosas «Lately», «Secretly» e «You’ll Follow Me Down», que fizeram parte do imaginário de uma década em constante procura da sua identidade. Agora, em 2009, os Skunk Anansie regressam para surpresa de muitos. Primeiro com um disco de grandes êxitos que reúne temas antigos e novas canções – intitulado Smashes and Trashes – para que o regresso não seja apenas passado e depois com uma digressão que poderá muito bem seguir o caminho dos dois concertos surpresa que deram em Abril sob o pseudónimo de SCAM (Skin, Cass, Ace, Mark), esgotados em minutos. As novas canções são «Because Of You», «Squander» e «Tear The Place Up» mas não parece haver sinais de que os Skunk Anansie fiquem por aí. Existirá nos Skunk Anansie a urgência de provar que não foram apenas um «produto» dos anos 90 e uma ligeira sensação de dever incompleto.Começou tudo em 1994 com uma biografia similar a tantas outras bandas ao início – os primeiros concertos, os prémios revelação, as primeiras canções, as primeiras pistas – mas um pouco distinta na sua evolução. «Feed» e «Selling Jesus» surgiram na banda-sonora do filme Strange Days em 1995 e com o lançamento do single «Little Baby Swastikkka» os Skunk Anasie caíram nas graças do polémico Howard Stern e pouco depois lançavam o disco de estreia, Paranoid and Sunburnt, na independente One Little Indian (a casa de Björk), que editaria também Stoosh. O resto é a história conhecida daquilo que Skin chamou a certa altura de clit-rock, assumindo o lado feminista dos Skunk Anansie e reclamando para si a identidade da banda. O lado político, esse, recusaram, apesar das suspeitas do público e da imprensa e da direcção notória de algumas das suas canções (nomeadamente nos textos que as sustentam). Quando os Skunk Anansie terminaram em 2001 recusaram também a inactividade e Skin, Ace e Cass e Mark seguiram carreiras a solo em diferentes frentes (nenhuma delas tão activa como com a da líder do grupo). As pistas para o que aí vem são poucas, mas Skin levantou o véu do novo disco numa entrevista à God is in the TV: «ainda não começámos a trabalhar nele propriamente, mas quando fizemos as três novas canções para o greatest hits, escrevemos na verdade dez novas canções que vamos usar como a nossa base e desenvolver a partir daí». «Bandas como os Muse tiveram nove anos para desenvolver as suas carreiras», continua, «e nós tivemos apenas um enorme hiato, por isso temos agora de desenvolver o nosso som e a nossa vibração. Mas existem definitivamente novas coisas a caminho». Para os Skunk Anansie o regresso é um processo normal e admitem: a química continua presente, não se perdeu com o passar dos anos. O jogo está em aberto e tudo pode ainda acontecer. Os concertos dos Skunk Anansie no Porto e em Lisboa, que são parte integrante da Greatest Hits Tour, serão certamente a melhor porta de reentrada para uma banda que deixou seguidores em suspenso mesmo depois de oito anos de profundo silêncio.Actuam a 4 de Novembro no Coliseu do Porto.
André Gomes