Os Prodigy são considerados um dos projectos pioneiros do big beat, género musical que nos anos 90 ousou meter no mesmo saco influências tão díspares quanto o tecno, o rock alternativo, o acid house ou o hip-hop, e apesar de um percurso de altos e baixos – que afectou igualmente outros projectos congéneres, como os Chemical Brothers ou Fatboy Slim – continuam a dar cartas e a mostrar que prazos de validade não são para eles. Invaders Must Die, o registo que chegou este ano às lojas, depois de anos conturbados, ajudou-os a ganhar novo fôlego e a atirá-los para os palcos como as feras que sempre foram. O concerto no Optimus Alive!09 foi explosivo e a banda, que falou com a BLITZ momentos antes de se apresentar frente aos fãs (alguns ocasionais mas muitos ferrenhos), não tem pruridos em assegurar que está mais forte que nunca.Acolhedoramente, contrastando especialmente com o ar completamente insano de Keith Flint, a banda recebeu-nos quando os Placebo davam o seu melhor em palco («Temos tocado imenso com os Placebo. São uma boa banda, gostamos deles. Somos uns sortudos» seria a frase com que uns meros dez minutos depois Flint colocaria um ponto final na conversa). Maxim ainda chegou a aproximar-se, mas acabou por deixar a comunicação entregue aos dois colegas. Liam Howlett e Flint, respectivamente o mago por trás das composições dos Prodigy e o vocalista e face mais visível da banda, sentaram-se à nossa frente não como se fôssemos invasores mas com simplicidade, simpatia e cordialidade, atributos que poucas pessoas lhes atribuirão. Para início de conversa decidimos quebrar o gelo: chegam a Portugal com energia renovada? «Sim», responde prontamente Howlett. «Nunca sentimos ter perdido a energia, sempre acreditámos na nossa música e sabíamos que conseguíamos sobreviver. A paixão pela música estava lá, bastava-nos encontrar a concentração e o espaço mental certo. Assim que isso aconteceu voltámos ao nosso melhor». Directo ao assunto, o músico nunca mostrou ter problemas em abordar os problemas relacionais que afectaram a banda. Em Julho de 2007 assumira-nos frontalmente que a banda «estava a desfazer-se e a dada altura deixámos de falar uns com os outros» aquando das gravações de Always Outnumbered, Never Outgunned, registo editado em 2004 e mal-amado antecessor do novo Invaders Must Die.As parecenças deste primeiro disco a conter o selo da editora Take Me To The Hospital (pertença da banda) com The Fat of the Land, o grande sucesso de vendas da banda e o registo que lhes valeu o estatuto de heróis musicais,não são mera coincidência. E mais uma vez, Howlett assume tudo de peito cheio. O caminho que começaram no álbum de 1997 liga directamente a Invaders Must Die? «Sem dúvida. Penso que todas as coisas que aconteceram entre estes dois álbuns tinham de acontecer para que nós chegássemos a este ponto. É uma história longa, mas todos esses acontecimentos fizeram deste álbum o que ele é. Acredito que teria sido impossível escrever Invaders Must Die a seguir ao Fat of the Land porque a pressão era muito grande e é sempre muito difícil escrever música nessas circunstâncias. Qualquer banda sabe que depois de um álbum muito bem sucedido é muito difícil escrever outro que lhe faça jus».Se em Always Outnumbered, Never Outgunned Howlett se socorreu de vozes externas ao projecto, dado que Flint e Maxim não estavam com grande vontade de cantar – Juliette Lewis, Pricess Superstar e Liam Gallagher, dos Oasis, são apenas alguns dos convidados – em Invaders Must Die o microfone volta a ser a arma mais forte para correr com os invasores. Keith e Maxim tomam conta da palavra e apenas em termos instrumentais há séria participação externa. A mais badalada é, sem dúvida, a de um Dave Grohl (Foo Fighters, ex-Nirvana) saudoso da bateria. Flint explica como tudo aconteceu: «O Dave enviou um email ao Liam a dizer que tinha acabado a digressão e que estava com saudades de tocar bateria. O Liam explicou-lhe que estávamos a terminar o álbum e ele enviou-nos partes do resultado de uma sessão de quatro horas de bateria. Quando chegou, nós já tínhamos as vocalizações de “Run With the Wolves” mas acabámos por adaptar tudo a uma série de loops da bateria do Dave. Numa semana estava tudo pronto». Howlett acrescenta, «Foi a última canção a ser escrita. Nós nunca fizemos grande questão em anunciar que o Dave estava no álbum porque queríamos deixar as pessoas descobri-lo. Somos amigos dele há muito tempo, desde que os Foo Fighters começaram». E como se conheceram, então? «Quando os Foo Fighters apareceram, estivemos juntos num festival na Bélgica, se bem me lembro. Cheguei ao meu camarim e ele estava lá. Tivemos uma conversa óptima e ficámos amigos desde então». «Além de nosso amigo é um baterista fantástico», remata Flint.UM OLHAR SOBRE O PASSADO E BOLA PARA FRENTEPioneiros do cruzamento entre as electrónicas e o rock incendiário, os Prodigy resolveram apostar numa fórmula que derruba fronteiras estilísticas porque sentiam necessidade de abanar o estado das coisas. O resultado foi a angariação de milhões de fãs dos dois lados da barreira. «Há períodos em que as coisas ficam praticamente inertes e só voltam a avançar quando há interligações. Estava a tentar insurgir-me contra a cena de dança que se tinha tornado um pouco presa. Acabámos por nos tornar uma espécie de outsiders, o que me agradou bastante. Hoje em dia as coisas estão muito mais abertas, excepto na América. Os Estados Unidos são o único sítio onde as coisas não mudaram, o que é uma pena. A Europa está muito mais aberta a artistas diferentes», explica Liam Howlett. E continuam tão subversivos hoje quanto eram quando começaram? «Provavelmente ainda mais subversivos agora, em abono da verdade», responde de imediato Keith Flint. «Escrever música tem tudo a ver com espaço mental, sacudir toda a merda que nos passa pela cabeça e focar-nos naquilo que queremos dizer e qual a direcção que queremos tomar. Quando somos jovens, somos muito mais inocentes. É difícil regressar a esse estado quando perdemos a inocência. Depois de gravarmos as nossas primeiras coisas, especialmente o primeiro e o segundo álbum, foi difícil recuperar isso, pelo que tivemos de perceber novamente em que espaço mental estávamos», complementa Howlett.Apesar de assumirem que as suas intenções relativamente à música são iguais, hoje, àquelas que tinham quando começaram, os dois elementos da banda asseguram que são o menos saudosistas possível. «Queremos exactamente a mesma coisa. Temos exactamente o mesmo objectivo: dar tudo nos concertos, criar para ter combustível em palco e explodir. Queremos ser a banda mais barulhenta que existe e abanar tudo e todos», exalta-se Flint antes de garantir que «O melhor ainda está para vir e o pior também». Howlett desenvolve o raciocínio de Flint quando confrontado com a necessidade de olhar para trás. «Podemos olhar para o pior que nos aconteceu como se tivesse sido, na realidade, o melhor que nos aconteceu. Se o pior não estivesse lá, o melhor não teria acontecido».Com os olhos postos no futuro, a banda não aponta sucessores no seu reinado porque ainda está aí para as curvas, mas não se escusa a elogiar algumas das bandas que mais respeita neste momento. «Conheço o James [Smith] dos Hadouken! e eles conseguiram criar o seu próprio espaço», refere Howlett quando confrontado com a reverência que a banda sensação britânica lhes parece prestar. «Gosto também muito dos Crystal Castles, são bons e muito originais».Com Invaders Must Die ainda bem presente – a digressão de promoção vai continuar a percorrer a Europa até pelo menos ao final deste ano – os Prodigy não querem sequer pensar no que vão fazer a seguir. «Há sempre coisas a acontecer, mas não seria bom começarmos a fazer música para um outro álbum agora. Claro que há sempre coisas que nos acompanham até ao estúdio, como batidas das quais gostamos e que nos ficam na cabeça… Acabam sempre por encaixar em algo que façamos no futuro».O sexto concerto dos Prodigy em Portugal – no palco do Optimus Alive!09 – foi a explosão que se esperava. Muita energia. Um Keith Flint e um Maxim completamente imparáveis conquistaram o público que acorreu à chamada. Os portugueses já os têm bem guardados na caixinha das memórias e o mesmo se pode dizer da banda. Liam Howlett não sabe ao certo quantas vezes cá veio, sabe que foram muitas (Lisboa, Porto e Zambujeira do Mar já os acolheram) e que aquela que lhe ficou mais na memória foi a primeira. A 22 de Junho de 1996 começou a história de amor entre os Prodigy e Portugal que dura até hoje e foi bem perto do Passeio Marítimo de Algés onde tocaram este ano: a banda recorda-se vividamente de actuar na mesma noite que os Massive Attack no Passeio Marítimo de Alcântara, um concerto inserido na segunda edição do festival Super Bock Super Rock (onde, entre outros, também estiveram os Divine Comedy e os Da Weasel).Grito de independênciaDepois de quatro álbuns editados com o selo da XL Recordings – editora independente britânica que serve ou já serviu de casa a nomes como Beck, Peaches, Sigur Rós ou Thom Yorke – os Prodigy resolveram agarrar na carreira com as próprias mãos e fundar a sua própria editora. A Take Me To The Hospital (curiosamente o nome da canção de Invaders Must Die que é editada como terceiro single comercial do registo) foi criada em 2008 e apesar de estar sob a alçada da Cooking Vinyl, dá a Liam Howlett, Keith Flint e Maxim uma liberdade que já não sentiam na editora que os lançou para o estrelato. Há dois anos, Howlett explicava: «Sentimos, de ambos os lados, que a nossa relação tinha terminado e que precisávamos de andar em frente. Durante aproximadamente um ano pensámos se devíamos assinar por uma major ou mantermo-nos independentes. Acabámos por decidir manter as nossas raízes independentes e criar a nossa própria marca». Take Me To The Hospital é assim «principalmente para nós», explica hoje o músico, acrescentando no entanto que «se nos aparecer alguma banda boa pelo caminho, claro que a assinaremos».Genealogia de um percurso erranteExperience (1992)O primeiro álbum de originais dos Prodigy saiu para as lojas apenas um ano depois da edição limitada do single «What Evil Lurks» (que não seria incluído no longa-duração). A crítica acolheu Experience, berço de canções como «Charly» ou «Out of Space», de braços abertos.Music for the Jilted Generation (1994)No Reino Unido, o segundo álbum da banda escalou até ao primeiro lugar do top de vendas e deu início a uma carreira fora de portas. «Voodoo People», «Poison» e «No Good [Start the Dance]» são singles que sobrevivem ao teste do tempo.The Fat of the Land (1997)Considerado a obra-prima da banda, The Fat of the Land chegou a estar entre os favoritos para o conceituado Mercury Prize (junto com OK Computer, dos Radiohead) mas acabaria por perdê-lo para Roni Size/Reprazent e o álbum New Forms. Número um em variadíssimos países, o álbum rendeu à banda clássicos como «Firestarter», «Breathe» ou «Smack My Bitch Up».Always Outnumbered, Never Outgunned (2004)O álbum da discórdia, aquele que deixou a banda de candeias às avessas, teve vendas bastante modestas apesar das colaborações de luxo (Juliette Lewis, Pricess Superstar, Liam e Noel Gallagher ou o rapper Kool Keith). Cilindrado pela crítica, o registo é o único da história da banda a não chegar ao galardão de platina no Reino Unido.Invaders Must Die (2009)Regresso ansiado por juntar novamente os três elementos fortes dos Prodigy, o quinto álbum de originais saiu este ano para as lojas e voltou a dividir a crítica: uns acham-no um desastre, outros um regresso à boa forma. «Omen», primeiro single oficial, recebeu o prémio de single do ano da conceituada revista Kerrang! (batendo canções dos Metallica, Slipknot e Placebo).
Mário Rui Vieira