Olhando para o cardápio mensal do Clubbing Optimus era impossível não reparar: Outubro transformado no mês das mulheres. Já não havia dois centímetros livres na sala quando as nova-iorquinas Au Revoir Simone ocuparam três lugares disponíveis numa varanda de teclados com vista para o público, que as recebeu como se se tratasse já de uma relação de longa data. Em segundos ouvem-se os primeiros sons vindos de uma caixa de ritmos e teclados mil. Há um travo forte a anos 80 e a sensação de cruzamento de mil e uma canções electropop guardadas na memória da música moderna. Ao vivo, as Au Revoir Simone deixam-se guiar pelo ritmo, em batidas que marcam mais ou menos o passo e a acção. Entre outras doçuras pop (como «Shadows»), com o krautrock bem lá ao fundo, pediram segredo e confessaram-se: Portugal é o país favorito delas para tocar.Já o amor pelas Slits é maior de idade e vacinado. Mais próximas do punk clássico ou do reggae, as Slits fizeram da música gato-sapato e cruzaram hemisférios a seu bel-prazer. Toda a actuação parecia querer levar-nos à inevitável «Typical Girls», que passou com distinção o teste da idade, mas desse Cut que fez história em 1979 rompeu também «Love und Romance. «I Heard It Through The Grapevine», clássico da Motown, foi também um dos momentos que mais valeram a pena registar na fotografia da noite e o novo álbum Trapped Animal, em destaque, revelou ainda o confronto entre o novo e o velho, prática assumida pelas Slits e sentido na pele por quem embarcou naquela espécie de regresso ao futuro.
Texto: André Gomes | Foto: Cristina Pinto Pinto