À hora marcada um anónimo não anunciado começava a projectar e a manipular imagens e som a seu bel-prazer. Primeiro de Sinéad O'Connor, dos Eurythmics, de Elvis, Barbra Streisand e dos Jackson 5.Desconstruíram-se as imagens mas principalmente os sons de forma a que se tornassem irreconhecíveis; e aí surgiram densas paisagens, techno e até um quase dubstep que entreteve alguns e tornou outros irrequietos.Quando algum tempo depois Mark E. Smith e os Fall entraram em palco haviam de fazer algo bastante idêntico: desconstruíram e construíram a música, enquanto prestaram vassalagem ao pós-punk, o motivo de sempre.Prova disso, abriram o concerto com uma quase irreconhecível versão de '1969' dos Stooges, sustentada por um riff demoníaco encriptado, ruído e a voz de sempre de Mark E. Smith. Quando Iggy Pop o cantou o mentor dos Fall tinha apenas 12 anos e estaria longe de conceber a banda que seria a sua de sempre, mas isso não o impediu de entregar a encomenda.Mark E. Smith é igual a si mesmo. Ataca cada canção com aquele cantar a falar que lhe é tão característico, tira o casaco, vagueia pelo palco, balbucia qualquer coisa, veste o casaco, lê texto de uma canção a partir de umas folhas de papel virado de costas para o público, não cumpre requisitos alguns dos tradicionais frontmans do rock - com mais ou menos roll.É um tirano em palco: retira volume no amplificador da guitarra, do baixo, aumenta depois quando quer e lhe apetece, dá um 'chega para lá' na teclista Elena Poulou para lhe mostrar como faz. Mark E. Smith gosta de controlar tudo. E quando os Fall arrancam para uma versão visceral da autobiográfica '50 Yeard Old Man', do recente Imperial Wax Solvent , tudo fica mais claro: o Senhor Fall anda nisto há demasiado tempo e já sabe como fazê-lo de trás para a frente. Não permite, por isso, perder o domínio da situação. O ritmo é esquizofrénico-frenético. A discografia dos Fall vai saltando a olhos vistos e é como ver a história do pós-punk ser contada numa tela cronológica. E ali, quando partem para uma versão furiosa de 'Reformation', loop de si mesmo e com a batida bem marcada, percebemos onde é que bandas como os LCD Soundsystem foram assumidamente beber conhecimento.Sem querer ir demasiado ao passado longínquo - porque esta é também uma banda do presente, orgulhosa do trabalho conseguido com Imperial Wax Solvent - Mark E Smith ofereceu uma justa e entusiasmante visão da história dos britânicos; uma excelente oportunidade, alguns para entrarem, outros para mergulharem, no fantástico e assustador mundo dos Fall.
Texto: André Gomes | Foto: Cristina Pinto Pinto