Acredite-se ou não na intervenção divina, há certas alturas em que apetece falar numa segunda vida, numa nova oportunidade ou até na vida após a morte. Ou no fenómeno da luz ao fundo do túnel, já nas manobras de reanimação cardíaca. Houve um momento em que os Tindersticks estiveram para deixar de o ser e passar para o lado das bandas que findaram após a separação dos seus membros ou de vários desentendimentos. Mas cinco anos após o lançamento do último disco, Waiting For The Moon, a banda de Stuart Staples, reduzida a metade mas nem por isso a cinzas, deu mostras de força e de esperança com o lançamento de um novo disco, cujo título talvez queira afirmar uma súbita fome - The Hungry Saw. Fome de canções, fome de estar de novo no turbilhão criativo, estar de volta tão-somente. Em momentos de dúvida, Stuart Staples chegou mesmo a duvidar do regresso dos Tindersticks. Quando embarcou numa digressão a solo, muitos foram também os que pensaram que os britânicos tinham chegado a um fim, mas a voz de «Can We Start Again?» vê a pausa da banda como algo necessário para recarregar baterias: «Nessa altura, pensei que podíamos acabar, mas também pensei que precisávamos de uma pausa uns dos outros, para saber quem éramos, aquilo que queríamos», confessa, em entrevista ao jornal Optimus/BLITZ. Esteve tudo sempre em cima da mesa, o jogo aberto, todas as hipóteses também. «Nunca sentimos [o fim] como uma decisão acabada. Precisávamos apenas de estar algum tempo longe e de colocar tudo em perspectiva», conta o inglês, visivelmente satisfeito com o desfecho final.The Hungry Saw foi o primeiro disco a ser gravado após a mudança de formação em 2006 e da saída de alguns dos membros originais da banda. Foi como apagar tudo e começar de novo, foi talvez como nascer de novo, como renascer: «Acho que estar longe da banda, fazer discos a solo ou deixar de estar envolvido com eles deu-me uma certa excitação para voltar à banda», confirma Stuart Staples. Para o vocalista dos Tindersticks ter pessoas novas a entrar na banda fez com que estes fossem «tempos excitantes», pelo que não hesita: «Foi muito bom estar nessa situação de novo», na posição de escrever novas canções e continuar a história dos Tindersticks. Stuart Staples, David Boulter e Neil Fraser passaram algum tempo a escrever e a gravar num estúdio recentemente renovado em Limousin, na França. Stuart Staples não consegue esconder a sua satisfação quando recorda esses dias de grande criatividade e espontaneidade: «Foram tempos óptimos. Nós gravámos o disco mais ou menos em oito dias. Se tivesse demorado mais do que oito dias estaríamos a fazer algo errado», confessa. Para Stuart Staples, The Hungry Saw, mais do que um parto fácil, foi um disco-bomba: «Foi como uma explosão, foi como fogo de artifício», relembra, aludindo ao carácter instintivo e expansivo do álbum. Mas as novidades em relação a The Hungry Saw não se ficam por aqui: «Este foi o primeiro disco desde há muito tempo sobre o qual não falamos. Não dissemos “vamos fazer um disco assim” ou “vai ter estes parâmetros”. Foi mais estarmos juntos e ver o que acontece, cada canção crescia e crescia e crescia com cada pequena ideia. Foi ver para onde é que elas iam». Hoje em dia, «um ano ou dois depois», os Tindersticks sentem que as canções ainda estão a crescer quando as tocam ao vivo: «Ainda as sentimos vibrantes e esse é realmente o grande teste para um álbum. É perceber durante quanto tempo as canções se mantêm vibrantes», conta Stuart Staples, felicíssimo com o resultado alcançado com o último disco da banda.Com The Hungry Saw na estrada - a entrevista apanhou Stuart Staples entre duas fases da digressão – os Tindersticks continuam a testar as novas canções entre alinhamentos que contemplam os clássicos da banda, temas de outros anos e realidades, pelo que se tornou necessário encontrar um pacto que todos pudessem firmar: «Com as canções mais antigas, tentamos descobrir quais aquelas que ainda carregam um certo tipo de magia. Tentamos chegar a um consenso entre o velho e o novo, ver aquilo que funciona no momento. E as novas canções continuam a crescer», sublinha, quase como que surpreendido com a força deste disco. O vigor de The Hungry Saw pode muito bem estar relacionado com uma certa necessidade dos Tindersticks provarem o seu valor depois do longo hiato. Stuart Staples concorda e reforça: «Acho que os nossos álbuns sempre passaram o sentimento que éramos uma banda com algo a provar», confessa, entre risos. «É sempre assim com todos os discos». Se o passado é assim, é apenas natural que o futuro não mude a sua trajectória. Porque parece realmente haver um futuro algures num horizonte não muito longínquo. Quando perguntamos a Stuart Staples se via os Tindersticks lançarem ainda outro disco a resposta é peremptória: «Sim», seguido de um quase-suspiro de consolo e um esgar de sorriso. Quando lhe perguntamos se existe mais romantismo sombrio para uma década, o vocalista dos Tindersticks não evita soltar uma risada mas escusa-se a fazer prognósticos. Stuart Staples não quer estar na posição de fazer planos com os Tindersticks; prefere que as coisas tomem o seu rumo calma e vagarosamente.Ao que parece, nunca quis. No início, quando tudo começou, os Tindersticks nunca estiveram escritos no papel. Stuart Staples lembra-se de «tempos fantásticos», de uma ingenuidade própria da época, de ver «um sonho musical crescer e concretizar-se», de terem 20 e tal anos no começar de um percurso que se tornou estilo de vida. Não recorda ou não quer recordar momentos-chaves, não romantiza demasiado o momento, diz que não pensa assim a biografia dos Tindersticks. Primeiro mostra-se surpreendido com o número «16» quando aplicado aos anos que já tem a banda, depois diz que tudo rodou sempre à volta das canções; canções que «crescem até outras canções», e que eventualmente crescem até serem disco. Nada mais fácil, nada mais simples e natural. Da carreira dos Tindersticks não ficaram até hoje altos e baixos, não ficaram episódios dignos de registo, mas sim um fluxo de energia para o qual muito terá contribuído a dedicação dos seguidores da banda. Tanto tempo depois, nos concertos, nada mudou. O culto dos fãs conseguido logo com o disco homónimo de 1993 por lá ficou, o que deixa Stuart Staples positivamente surpreendido. E porque em Portugal se criou uma relação especial com a banda (Staples fala de «grandes memórias»), o líder dos Tindersticks aguarda com expectativa o regresso a terras lusas. Nós também.Os Tindersticks actuam dia 14 de Fevereiro na Casa da Música (Porto), espectáculo inserido na programação do Clubbing Optimus.OS DESALINHADOSDesde que se apresentaram pela primeira vez em 1993, os Tindersticks nunca temeram mostrar a sua verdadeira identidade musical – os seus genes, portanto. A marca de água da banda britânica emergiu e tornou-se desde logo visível com um disco homónimo – no máximo – devedor aos ensinamentos de Scott Walker ou Leonard Cohen, mas com uma personalidade própria. The Hungry Saw não é excepção numa discografia onde a coerência é marca fundamental. Stuart Staples não hesita em confirmar que a sua banda contínua, como noutros tempos, a colocar-se numa posição tão afastada quanto possível da cena indie britânica e da brit pop: «Nunca me senti ligado a uma cena desde que começámos», confessa. Mais independentes do que tristemente sós, os Tindersticks recorrem a outras fontes em vez de seguir aquilo que já está estabelecido. «Estávamos ligados a uma energia, mas nunca me senti afiliado a nada», conta Stuart Staples, manifestamente partidário da independência dos Tindersticks.
André Gomes