Há já muito tempo que os Mão Morta ajudam a tornar respirável a música desta esquina do mundo. Enquanto banda e enquanto indivíduos em diversos projectos. Um deles é o que nos traz cá agora: Estilhaços, de Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael. Estilhaços é um modo de dar ênfase ao que nos Mão Morta já era sublinhado: as palavras. O projecto partiu de um livro lançado por Adolfo Luxúria Canibal, em 2003, e daí se chegou ao que o anglicismo chama de spoken words . Voltou-se, portanto, ao palco e ao disco, mas num modo mais discreto de estar - como o exigem estas palavras mais ditas do que cantadas.Em palco, o dispositivo é simples: Uma mesa, um candeeiro de leitura, um livro e um copo para Adolfo Luxúria Canibal; um teclado e uma caixa de ritmos para António Rafael; um contrabaixo e alguns objectos de manipulação para Henrique Fernandes. Há ainda uma tela com fotografias a fugir para o surrealista, a compor o cenário. Depois, é só seguir as histórias que os temas contam, narrativas mais ou menos lineares, com as inevitáveis cidades à mistura.Neste concerto da Loja Optimus, o disco foi seguido à risca até ao quinto tema, até ao quase letrista 'Braga, Meu Amor'. Aí entraram os temas novos: 'Naufrágio', 'Justo Equilíbrio', 'Florestas sem Música' e 'Questão de Ambiência'. Voltou-se depois ao alinhamento conhecido, a 'White Light, White Heat' e ao tom burlesco de 'O Homem aos Saltos' - forma ideal de alguém se 'rir das cócegas da liberdade'.
Texto: Sérgio Gomes da Costa | Foto: Cristina Pinto Pinto