Num momento em que os holofotes culturais estão todos apontados para a Índia, depois de o filme Quem Quer Ser Bilionário? ter triunfado nos Óscares, os mais importantes galardões de cinema, o britânico de ascendência indiana Nitin Sawhney passou por Lisboa para encher uma noite de Verão antecipado de espiritualidades orientais.Com o álbum London Undersound ainda fresco, o músico não se deixou esmorecer pelos factores adversos: o próprio assumiu os seus problemas vocais provocados pela garganta inflamada, questões técnicas pouco favoráveis e a falta do vocalista que o acompanha na digressão (deportado da Europa).Embora nenhum dos ilustres convidados do álbum o acompanhe ao vivo - Ojos de Brujo, Imogen Heap, Natty e Paul McCartney terão os seus afazeres - a tarefa é bem assegurada pela poliglota Tina Grace (canta em francês, inglês, castelhano e português açucarado) e Luci Jules.À hora certa, o palco enche-se com Sawhney na guitarra acústica, o percussionista que viria a protagonizar o momento alto da noite, o baterista e o violoncelista. O pano sonoro ajuda Luci Jules a começar com chave de ouro: 'Sunset', de Prophesy (álbum de 2001 e um dos mais aclamados do músico) entra de mansinho e acomoda-se confortavelmente nos ouvidos.Entre recuos para canções que fazem a história discográfica de Sawhney, como 'Immigrant', justificadamente dedicada ao vocalista deportado, e o belíssimo 'Homelands', apresentado a duas vozes e por duas vezes - ambos do velhinho Beyond Skin - e canções novas, o músico e os seus acompanhantes conquistaram o público, que se deixou levar pelo transe étnico.Também de Beyond Skin ouviu-se ainda 'The Conference', momento de experimentalismo vocal, com os sons guturais de Nitin a marcarem o ritmo em crescendo até a apoteótica prestação do percussionista arrancada de rompante aos tambores em solo acelerado.De London Undersound ouviu-se a delicadeza em lume brando de 'October Daze', a acutilância de 'Days of Fire' (uma homenagem ao brasileiro Jean Charles De Menezes abatido a tiro por engano pela polícia no metro londrino) e os ritmos bossa de 'Distant Dreams'. 'Dead Man', de Philtre, marcou o momento soul do concerto, com a sensualidade vocal de Luci Jules a soar mais alto.O primeiro encore é servido com o espiritual 'Prophesy', que mantém o público vidrado no palco enquanto o ritmo ascende até um final apoteótico. A um 'Obrigado Portugal' sentido, segue-se a repetição de 'Homelands', que apesar de requentada e desnecessária, dada a vasta discografia do músico, é recebida de peito aberto por um público que presta culto inquestionável ao encantador de serpentes mais ocidental da música com sabor a especiarias exóticas.
Texto: Mário Rui Vieira | Foto: Rita Carmo/Espanta Espíritos