O Clubbing Optimus de Abril previa uma espécie de confronto entre o que é minimal e o que é maximal. Pelo menos na forma, uma vez que no conteúdo as actuações de Paulo Furtado e dos Magic Numbers aproximaram-se em corpo e em presença.Todos conhecem na perfeição o métier de Paulo Furtado enquanto Legendary Tiger Man: espécie de arquivo vivo dos blues, de pés mergulhado no Mississipi e orgulhosamente só. Uma voz, uma guitarra, um bombo, um kazoo - e pouco mais - são aliados na recuperação de clássicos ou espírito do género.Assim acontece normalmente, assim aconteceu em noite de Optimus Clubbing. As canções escritas por Paulo Furtado vão-se confundindo com esses clássicos dos blues e cria-se um fio contínuo de celebração do legado de Robert Johnson, Charley Patton e Muddy Waters, entre tantos outros.De repente, "Honey You're Too Much" destaca-se pela sua fluidez e pontaria no alvo. Instala, ainda mais, a libido como estado de espírito dominante. O clima é, como sempre, incendiário; nos temas das canções, na relação com o público, no confronto de um homem só e de uma plateia que o segue.Femina , o novo disco de Paulo Furtado que, mais do que nunca, vive de e para as mulheres, antecipou-se ali em palco: "Here Comes the Pain", aparece tão rápido como desaparece, quase furiosa, entre queixas de feedback excessivo e cheiro de um combustível blues a ser queimado aceleradamente. E esta pode ser muito bem a descrição geral de um concerto de Paulo Furtado, rocker português por excelência.Assim que assentou a poeira blues, os Magic Numbers instalaram outra realidade. A das canções de sensibilidade indie, com mais ou menos acento rock, mas invariavelmente melódicas. Dois pares de irmãos apostados em fazer música desavergonhadamente fácil para o ouvido subiram a palco com dois discos debaixo do braço e um outro em andamento.A formação é a típica - guitarra, baixo, voz e bateria - e os ensinamentos são os da música independente e da pop de 60s e 70s. O resultado, foi possível confirmar ao vivo, é uma saudável mistura entre canções contemplativas e outras acentuadamente rock mas o melhor talvez esteja no contraponto das duas: uma canção como "Fear of Sleep", de arestas bem limadas e fluidez admirável, destaca-se de todas as outras pela sua beleza aditiva e formas nobres."Fear of Sleep" é também, ficaram todos a saber, espécie de lema para os Magic Numbers. Fala do medo de dormir e de perder alguma coisa de relevante no entretanto, o que levou Romeo Stodart a confessar que os Magic Numbers contavam passar a noite a beber junto ao Rio Douro - e lançou o convite a todos os presentes.Obrigatório, o lado mais rock dos Magic Numbers apareceu - e bem - em "Morning Eleven", com guitarra/baixo efervescentes e refrão clássico. Fórmula de sucesso; por esta altura já a plateia estava rendida aos encantos dos britânicos, recusando-se a dormir e perder alguma coisa importante pelo caminho.
Texto de André Gomes | Foto de Cristina Pinto Pinto