O QUE É A OPTIMUS DISCOS?A Optimus Discos é uma iniciativa da Optimus, com direcção artística do radialista e divulgador musical Henrique Amaro. Objectivo: disponibilizar gratuitamente na Internet, e a preço acessível nas lojas FNAC, um conjunto de EPs (discos de curta duração) da autoria de artistas portugueses. Nesta verdadeira selecção nacional, há músicos bem conhecidos do público – Tó Trips (dos Dead Combo), Mazgani, DJ Ride – e também jovens promessas da música portuguesa, dando os primeiros passos na edição de discos.QUEM PARTICIPA?A primeira série de seis EPs inclui discos de Madame Godard, The Pragmatic, Tiguana Bibles, DJ Ride, Tó Trips & Tiago Gomes e Bombazines, projectos que apresentámos na edição passada do jornal Optimus/BLITZ.Para a segunda série estão confirmados trabalhos do rapper Bezegol; da «orquestra dançante» Real Combo Lisbonense; dos Vicious Five ao vivo em estúdio; da cantautora Márcia; do iraniano Mazgani, com produção de Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, e do teclista dos X-Wife, Rui Maia, a solo. A terceira série chega em Dezembro e deverá contemplar surpreendentes prestações de grandes nomes do rock português.COMO POSSO OUVIR?Para fazer o download gratuito de todos os EPs, basta dirigir-se ao site da Optimus, em http://musica.optimus.pt. Aí encontrará, inicialmente, os seis primeiros discos da colecção. Em Junho é revelada a segunda fase da iniciativa e em Dezembro a terceira. Os discos ficarão on-line para que possam ser descarregados livremente em qualquer altura e em qualquer parte do mundo.Todos os EPs terão também edição física, ou seja, estarão à venda nas lojas FNAC em formato de CD, pelo preço de 4,95 euros. «A música dirige-se a públicos com hábitos distintos e se uns cresceram a ouvir vinil, outros nem sabem do que se trata», explica Henrique Amaro. «Existe uma realidade digital centrada numa geração recente e uma outra que ainda promove uma ligação próxima ao objecto».QUANTOS DISCOS VÃO SER LANÇADOS?36 EPs, ou seja, seis séries de seis discos, lançados como download grátis e como CD ao longo de dois anos – 2009 e 2010. A estes discos junta-se a Área Extra, iniciativa complementar onde os discos terão edição apenas na internet, ou seja, a música não será disponibilizada em CD. Além dos artistas portugueses, este «braço» da Optimus Discos estende-se ao mundo lusófono, abrangendo músicos do Brasil e dos países africanos de língua oficial portuguesa.Até ao momento, Henrique Amaro pode confirmar a edição de um EP dos Autoramas, banda rock do Rio de Janeiro que, para o efeito, gravou versões de músicas portuguesas, como «Olha o Robot», dos Salada de Frutas. Outros confirmados na Área Extra são os também brasileiros Mundo Livre, «banda seminal do mangue beat», que este ano completam 25 anos de carreira. Pela Optimus Discos, os Mundo Livre vão lançar um EP gravado ao vivo no festival Abril Pro Rock, em Pernambuco.Também os portugueses Coldfinger vão aproveitar a boleia da Optimus Discos para editar um EP ao vivo, neste caso no bar Musicbox, em Lisboa, num concerto em 2008.HÁ MAIS ALGUMA COISA NA MANGA?Há muita coisa na manga. A Área Extra, onde se editará música apenas on-line, estará aberta a vários quadrantes do mundo lusófono. Além de Portugal e Brasil, Henrique Amaro espera «pescar» músicos angolanos como Iconoclasta ou MCK.Com estas séries de três EPs on-line, a cargo de artistas não exclusivamente portugueses, a Optimus Discos prepara-se para chamar a atenção do mercado internacional para esta iniciativa.«Contamos trazer os brasileiros, angolanos ou cabo-verdianos ao nosso site», afirma Henrique Amaro, que encara a Área Extra da Optimus Discos como «um upgrade», para que quem vá ao site fazer download dos primeiros seis EPs não tenha de esperar quatro meses pela remessa seguinte. «Trata-se de fomentar uma ideia de continuidade».A OPTIMUS DISCOS VAI EXISTIR FORA DE PORTUGAL?Graças às edições on-line, sim. A palavra a Henrique Amaro: «Baseio muito esta plataforma naquela ideia da música 2.0», diz, adaptando a popular expressão «web 2.0», que se refere a uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo a internet como plataforma. «Esta é uma iniciativa local, que pensa local. Mas, a partir do momento em que colocas uma plataforma na net, estás a pensar global. Qualquer tipo, em qualquer parte do mundo, vai ter acesso ao DJ Ride, aos Tiguana Bibles ou aos Vicious Five», ilustra. «È uma arma e uma ferramenta dos nossos dias: não estamos dependentes de uma distribuidora internacional para promover a música. Esta plataforma é auto-suficiente. Se amanhã emigrar para Reiquiavique ou para o sertão brasileiro e quiser ouvir estes discos, nada me irá impedir».Entrevista Henrique AmaroO director criativo da Optimus Discos levanta o véu sobre os protagonistas da primeira série de EPs. O lado «suave» do roqueiro Victor Torpedo, líder dos Tiguana Bibles, e a maturidade «precoce» do hip hopper DJ Ride são algumas das surpresas mais gratas desta jornada inaugural, mas Henrique Amaro põe as mãos no fogo por todos os seus «convocados».Nesta primeira «rodada» da Optimus Discos há lançamentos de artistas de hip-hop, pop, electrónica, rock, spoken word... Existe um fio condutor a unir estes artistas?Não, e em princípio nunca vai haver. Isto está tudo em construção, mas para já é feito numa perspectiva de individualidade, daquilo que eu acho que tem validade artística. Estes são os discos que eu gostaria de ter em casa, seja no meu disco rígido, seja na minha prateleira de discos. O projecto tem um lado acidental de [resgatar] discos que estão a ser feitos e não têm uma solução editorial – foi o que aconteceu com os Madame Godard ou os Tiguana Bibles. E há o outro lado que quero começar a desenvolver mais, o do convite directo: ter uma ideia para um disco e propor aos artistas que o façam. O disco do Tó Trips com o Tiago Gomes, por exemplo, partiu de um espectáculo que, na cabeça deles, não era urgente passar para uma fita. E eu acelerei o processo. À excepção do disco do DJ Ride, que é um trabalho «de encomenda», todos os outros já existiam. Os Bombazines, por exemplo, existiam numa maqueta, eu só acelerei o processo de eles irem para estúdio e gravarem aquilo com o New Max [dos Expensive Soul]. A Optimus Discos tem sempre dois lados: por um lado, tentar solucionar um vazio editorial, por outro criar conceitos que possam ser aproveitados pelas bandas.Em Portugal, há muita música com essa «validade artística» que fica na gaveta?Há, e essa urgência é que motivou este projecto. É como aquele jantar muito bom que tu fazes, sobra um bocadinho que vai para o frigorífico e depois é um desperdício: não comes e acabas por mandar para o lixo aquilo que, na sua forma original, deu um grande jantar. Em Portugal há muita coisa que está «no congelador», e outras que podem ser proporcionadas, motivadas. Há muita gente com óptimas ideias mas a quem falta esse impulso, essa certeza de que o investimento irá ter um fim: as suas criações serem conhecidas por pessoas. Num país precário, não podes desperdiçar talento. É como desperdiçar água no deserto ou comida num país subnutrido. Em qualquer área, o Portugal contemporâneo deve combater o desperdício. Ao teres músicos criativos, tens de aproveitá-los e disponibilizá-los publicamente. Esse é o ponto de partida da Optimus Discos.Há cerca de dez anos organizou uma colectânea de música portuguesa, chamada Tejo Beat. Se a Optimus Discos existisse em 1998, quais teriam sido as bandas convidadas?As que coloquei no Tejo Beat, para facilitar o raciocínio. A qualidade do nosso trabalho como jornalistas ou divulgadores depende muito do trabalho dos músicos: o meu programa [na Antena 3], por exemplo, poderá ter altos e baixos, mas está muito dependente da produção contemporânea. Tal como os enólogos e os agricultores estão dependentes da meteorologia, nós estamos dependentes da criação musical. Neste momento, como há dez anos, há boas colheitas. Não havia nexo de estar a proporcionar uma plataforma destas se não houvesse uma garantia criativa. Esse é outro desafio dos dias de hoje: a ideia de ser gratuito é sinónimo de aceitação à partida, mas se não houver uma validação artística, se o produto não for minimamente interessante, não volto lá. Não é o facto de me estarem a dar uma música que me faz interessar por ela. A coisa tem de ser legitimada do ponto de vista criativo. Essa é outra das garantias que vou tentar dar, pelo lado autoral da escolha. Depois, são as obras e os grupos a falar por eles próprios.Todos os artistas incluídos na primeira série da Optimus Discos eram seus «velhos» conhecidos. Ainda assim, quando ouviu os resultados finais, teve alguma grande surpresa?Surpreendeu-me o Vitinho [Victor Torpedo, dos Tiguana Blues], um veterano. Numa altura em que há uma unanimidade – muito merecida – à volta do Paulo Furtado, surpreendeu-me essa figura pioneira da arte eléctrica coimbrã. Surpreendeu-me a maneira como ele está a tocar guitarra, nunca o ouvi assim; sempre o ouvi muito frenético. Também me surpreendeu muito a rapidez e a consistência com que o DJ Ride fez o seu EP. Ele parece-me ser um tipo muito novo para uma aventura tão forte (risos). Era mais natural se este disco acontecesse daqui a alguns anos. Além do bom gosto, tem uma consistência técnica e uma inspiração muito forte. Aliás, nasceu de um episódio engraçado: eu estava a ter uma das últimas reuniões num café frente ao Parque das Nações e vejo passar o DJ Ride. Pensei logo: este gajo tem de estar presente nesta série de EPs! Mas meto as minhas mãos no fogo por todos os artistas da Optimus Discos, e se tudo correr bem hei-de pôr até ao final da série.
Texto: Lia Pereira | Foto: Rita Carmo