UM DOS OBJECTOS mais singulares da primeira série da Optimus Discos, Vi-os Desaparecer na Noite é o tributo de dois artistas portugueses – um músico e um escritor – ao clássico de Jack Kerouac, originalmente editado em 1957 e sorvido, desde então, por gerações de aspirantes a rebeldes. Tó Trips, guitarrista e agitador, ao longo das últimas duas décadas, de grupos como Lulu Blind, Santa Maria Gasolina em Teu Ventre ou Dead Combo, foi convidado, em 2007, para tocar numa exposição sobre os 50 anos do livro de Kerouac. «Convidaram-me para ir lá pôr umas guitarras», recorda Tó Trips em conversa descontraída com o jornal Optimus/BLITZ. «Então lembrei-me que se calhar era fixe convidar o Tiago para ler uns trechos do livro, enquanto eu fazia umas guitarradas», conta entre risos. Tiago Gomes, poeta, letrista e editor da revista Bíblia, aceitou o repto e recitou, no espaço Avenida da Liberdade 211, em Lisboa, algumas passagens de On The Road, na tradução que lera pela primeira vez aos 18 anos. Estava formada a equipa que, nos meses seguintes, iria percorrer as estradas de Portugal, num espírito de aventura em tudo devedor do livro que dera origem à empreitada.A palavra ao homem que, ao longo dos oito temas de Vi-os Desaparecer na Noite, dá vida ao texto: no comunicado de imprensa, Tiago Gomes assegura que, na jornada desta dupla portuguesa com a cabeça na América, Jack Kerouac é um «fantasma» tão presente como a sombra de Lou Reed ou Tom Waits, que por seu turno dividem o direito de antena com um qualquer «cabeleireiro de Aveiro, fazedor de sandes de carne assada com taças de vinho verde no Porto, barman nos Açores [ou] baterista furioso em Coimbra».Confuso? É normal, admite Tó Trips. «Não é fácil estar a ouvir um gajo a ler partes de um texto com outro gajo a tocar guitarra. Mas esse lado da experiência é o que eu sempre apreciei na música – para mim, a música é liberdade».Com a idade, reflecte o guitarrista, a vontade de experimentar e conhecer novos mundos vai-se expandindo. «Quanto mais velho sou mais dou por mim a apreciar coisas completamente diferentes», explica. O desejo de experimentar caiu que nem ginjas na missão On The Road, para a qual Tó Trips procurou pintar, com o seu instrumento, vários cenários diferentes. «Quis mostrar várias partes dos Estados Unidos: a América da cidade, mais do jazz; a América do campo; o lado mais psicadélico, das drogas; a fronteira com o México… Tentei que as músicas fossem pequenas histórias ou situações».Aparte alguns improvisos de Tiago Gomes, feitos em inglês, as palavras de Vi-os Desaparecer na Noite lêem-se em português. Tó Trips admite que a opção poderá causar estranheza no ouvinte mais incauto, mas defende a sua dama: «Eu disse ao Tiago: somos portugueses, porque é que não havemos de ler em português?», lembra. «Sei que é um bocado estranho e isso nota-se às vezes na reacção das pessoas, mas isto não é um disco “para vender”. É uma experiência».Gravar esta «experiência» pouco demorou a Tó Trips, Tiago Gomes e três músicos convidados: Paulo Gouveia na bateria, Francesco Valente no contrabaixo e José Lencastre no saxofone. Já a edição foi mais caprichosa: «Quis que a música fosse uma cama para o texto», ilustra Tó Trips. «Tive bastante trabalho com os efeitos, para dar às músicas um lado mais jazzístico, mais roqueiro ou mais acústico».Mais de 50 anos após a primeira edição, On The Road continua a enfeitiçar leitores de todas as idades e a dar origem a tributos como Vi-os Desaparecer na Noite. Qual o segredo da obra que transformou a ideia de atravessar a América de costa a costa em aspiração de vida? Tó Trips dá a sua achega: «Tem um lado muito rock, de liberdade. Os gajos da cidade que foram por aquele país enorme descobrir o campo e outras facetas dos Estados Unidos. Mais livre do que andar aí na estrada não há!», exclama, entre gargalhadas.FACTOOn The Road, ou Pela Estrada Fora, na tradução para português, foi escrito em apenas três semanas. Vi-os Desaparecer na Noite, o disco-tributo, foi ainda mais veloz: as gravações duraram apenas três dias.2 OU 3 COISAS A FIXAREste não é o primeiro disco dedicado à prosa de Jack Kerouac. Em 1997, Kicks Joy Darkness reuniu em CD a voz declamada de músicos como Eddie Vedder (Pearl Jam), Jeff Buckley e Steven Tyler (Aerosmith), bem como do actor Johnny Depp.A revista Time considerou On The Road um dos cem melhores romances em língua inglesa publicados após 1923.
Lia Pereira