Passam poucos minutos das 22h00 e no palco à nossa frente estão uns Blasted Mechanism de imagem renovada. São, nas palavras de Valdjiu, um dos líderes do projecto, uma «nova constelação» com energia renovada. A sexta geração já não conta com Karkov nas vozes, mas Guitshu, o novo cantor, não desilude. Enquanto discorrem as canções do novíssimo Mind at Large – «Start to Move», que conta com um sample vocal do filósofo português Agostinho da Silva, é o novo hino e por isso ouve-se duas vezes – e recuam às velhas glórias, como «Sun Goes Down», «Sound in Light» ou «Karkov (Nadabrovitchka)», perdemo-nos nos novos jogos de luzes (que se sincronizam com o som), nas novas indumentárias da banda e numa verdadeira multidão de açorianos que não se fez rogado a deslocar-se até à Lagoa das Sete Cidades para assistir ao espectáculo.O cenário não poderia ser mais indicado: a paz da água da Lagoa ajuda a controlar o turbilhão de fogo desta ilha vulcânica de São Miguel. Os patos que nos últimos dias tanta companhia fizeram a quem se quedou pelas margens da Lagoa estão recolhidos, mas quando olhamos para o céu desconfiamos vislumbrar um açor, a ave que baptizou o arquipélago mas que nem sequer existe no seu território. Este é o momento mais alto de uma viagem de três dias recheados de festa e de celebração da natureza. Os Blasted Mechanism resolveram celebrar o nascimento de uma nova geração – e a edição de um novo disco – com um verdadeiro sonho tornado realidade: viajaram para território insular na companhia de 160 convidados, grande parte dos quais são ouvintes fiéis da banda, com o intuito de promover uma nova mensagem.A viagem começara a 7 de Abril. Do terminal 2 do Aeroporto de Lisboa, arrancou um voo com destino a São Miguel. Era de manhã e talvez poucos se conhecessem. A legião de fãs que segue os Blasted não demorou a fazer a festa. Pouco depois de os sinais dos cintos de segurança se apagarem – sinal de que a descolagem tinha corrido pelo melhor – soltou-se a música. Alguns elementos da Nação Vira Lata, colectivo de percussão que ajudou a animar os três dias de festa, resolveram antecipar os seus workshops de batuques e fizeram abanar os esqueletos que se encontravam a bordo.Valdjiu assumiu cedo a tarefa de mestre-de-cerimónias e foi-se dirigindo aos convidados para avisos prementes – comunicando campeonatos de xadrez, a falta de alimentação vegetariana a bordo e agradecendo a todos os que embarcaram nesta viagem que começava a soar bem transcendental.UMA BANDA CHEIA DE MÍSTICAA chegada ao aeroporto de Ponta Delgada fazia antever o sucesso da iniciativa. Os meios de comunicação locais receberam a banda e os convidados de forma calorosa. O concerto era um verdadeiro acontecimento, talvez por culpa de uma movimentação fora do normal, e levou Valdjiu e companhia às rádios, que anunciavam a chegada com pompa e circunstância. Banda e fãs eram então transportados para o local onde toda a acção se desenrolaria: as margens da paradisíaca Lagoa das Sete Cidades, a uma meia hora de curvas agressivas da cidade de Ponta Delgada. A escolha do local era justificada por Valdjiu aos seus ouvintes da seguinte forma: é o sítio indicado porque «promove o equilíbrio, fazendo com que o álbum seja apresentado de forma pacífica». A iniciativa pode até ter surgido de um sonho, mas as interligações entre a paisagem natural e a nova simbologia dos Blasted Mechanism parece mais que mera coincidência. O triângulo ascendente que se pode ver na capa de Mind at Large é um dos símbolos mais fortes da nova imagética da banda. Ele casa a energia que sobe do fogo (recorde-se que estamos numa ilha vulcânica) com a água da Lagoa. «É o sítio onde se torna possível comunicar com o centro da terra para encontrar um novo homem», acrescenta Valdjiu. É aqui que, de acordo com Valdjiu, se encontra uma força da natureza que começa a ganhar força, uma força descendente e pacífica: a força feminina da água.A veia mística dos Blasted Mechanism está mais forte que nunca. «Quando se fazem as perguntas certas, aparecem essas pessoas», acrescenta Guitshu. O novo registo é uma viagem aos antípodas da mente, o «sítio onde podemos caminhar no escuro e onde encontramos uma agulha para rebentar a bolha, percebendo que ainda há muito para explorar». E como é que as crenças pessoais se tornam em música partilhada? «Estou sempre a tentar renovar o meu sistema operativo, limpando-me. Se conseguires ultrapassar o teu sistema de crença, dobras colheres com a mente ou passas mesmo de dimensão, vibras tão alto que te desfazes em amor e passas para outra. É possível partilharmos algumas fórmulas divinas comuns, mas no entanto não há um sistema condutor presente em cada um de nós. Somos seis seres totalmente diferentes e isso é que faz com que essa dança seja totalmente mágica e que se perpetue e desenvolva no palco», explica Valdjiu. Por aqui se percebe que os Blasted são muito mais que uma mera banda. São uma equipa alargada que junta músicos, artistas visuais, criadores de vestuário e até programadores de informática. A música foi o veículo encontrado para comunicar a mensagem do projecto. É assim que Guitshu põe em palavras as intenções dos Blasted: «A música só por si já é um meio de comunicação que habita o éter. É a linguagem primordial entre nós. Esse entendimento na música leva-nos a buscar também o entendimento nas ligações com outras pessoas. É um processo de cura, de limpeza». Também as indumentárias novas usadas em palco são uma forma de comunicação. «Estes fatos são o fruto desse sincronismo com o eixo. São altamente inovadores, muito mágicos, e reflectem aquilo que nós somos mais que os de Sound in Light [álbum anterior]. Servem para desbloquear energias, promover o novo», diz Valdjiu.FIM DE VIAGEM, INÍCIO DE ALGO MAISVoltando ao ponto alto desta aventura de três dias, olhamos em frente e vemos em palco uma banda que se sente bastante à vontade na sua nova pele. É óbvio que Guitshu a veste melhor nas novas canções, aquelas que já têm inscrita a sua marca, mas nem por isso o espectáculo deixa de estar ao nível dos concertos que levaram a banda a crescer em palco. É por essa razão – por serem grandes em palco – que os Blasted Mechanism têm à sua frente uma verdadeira multidão. As nuvens que pairam por cima da Lagoa não demoveram os açorianos e, segundo contas da organização, compareceram para cima de sete mil pessoas. O verdadeiro cocktail de sonoridades que bebem águas multiculturais, indo buscá-las a terras do Oriente mas também à América Latina, é, sem dúvida, eficaz e os novos temas não desiludem os espectadores.Como Guitshu nos explicara à tarde, este concerto é o pontuar de «uma coisa nova. Um novo disco dos Blasted era uma grande responsabilidade. Utilizei a intuição, sem desvirtuar o que estava para trás». Quando foi convidado a dar voz aos Blasted Mechanism, «sabia que havia um passado e a minha entrada, naquela altura, foi como entrar num comboio em movimento. Andei um mês a tentar meter na cabeça os temas que estavam para trás, que iam fazer parte do repertório e que íamos tocar ao vivo passado um mês e meio. A minha primeira preocupação na altura era essa». Com essa preocupação arrumada, o cantor agora só tem de se preocupar em levar o comboio a uma nova velocidade. A uma velocidade tão rápida quanto a do avião que nos traz de volta a Portugal continental, com a sensação de dever cumprido. Os Blasted Mechanism tiveram um sonho, levaram-no avante e agora uma nova vida abre-se à sua frente.Realidade AumentadaMind at Large, o novo álbum dos Blasted Mechanism, é muito mais que um mero disco. O registo – que encerra em si canções como «Start to Move», «Grab a Song» (que conta com a participação do colectivo mariachi Los Reyes) ou «Voo de Ícaro» (uma parceria com o brasileiro Marcelo D2) – é um objecto interactivo, que cruza o álbum físico com o site da banda e se transforma num jogo de interacção com o ouvinte. Para concretizar esta ideia, foi criada uma aplicação de realidade aumentada, fruto do trabalho de Frederico Ferreira, um dos «agentes cerebrais» deste projecto inovador. O aplicativo serve para que cada fã tenha um papel activo, uma nova forma de estar com a banda, interagindo no site através dos símbolos presentes no trabalho gráfico do álbum. Melhor experimentado que explicado, o que acontece é o seguinte: a webcam de um computador reconhece os símbolos (isto depois de se ter descarregado os programas necessários no site da banda) e faz com que cada músico apareça representado de forma virtual (a 3 dimensões). A cada um dos elementos da banda, está associado o som do instrumento que toca e até o volume da música pode ser controlado, afastando ou aproximando o álbum da câmara. Este sistema saltará dos computadores para os telemóveis.
Texto: Mário Rui Vieira | Foto: Publiçor